domingo, 27 de setembro de 2015
Beja e o seu nome indígena pré-romano
Será que a condenação da memória histórica de uma cidade ou de um cidadão, nada diz à ciência? - "Damnatio Memoriae"! Quantas vezes Roma, e não só, praticou este esquecimento obrigatório, impondo severamente o silêncio sobre a identidade, o nome e os feitos de quem a combatia com temeridade. Roma não perdoava a desobediência e é de crer que tenha proporcionado um castigo exemplar a quem não se lhe queria subjugar. Um homem, um grupo ou uma cidade... O que teria de facto acontecido? Esperemos que a ciência arqueológica possa trazer à superficie a razão por que se desconhece o nome da cidade da paz, da cidade que em nome da paz e de Júlio César, terá sido obrigada a repudiar o seu próprio nome, sob pena de maior sofrimento. Conistorgis ou Ges, ou outro nome qualquer, tanto faz, desde que se prove que já existia... e que Roma a temia. - LB
Claro que não disse tudo no pequeno texto/justificação da questão "Porque é que todas a cidades têm nomes indígenas e Beja Não?". Nem poderia dizer, pois não sei, mas, das cidades que ainda osconservam poderei deduzir que se portaram bem perante o invasor. Ter-lhe-ão dado alguma luta, mas renderam-se, tendo como prémio, pelo menos, a preservação do seu nome indígena. Não se deve ter tratado de cobardia, mas, talvez, de bom senso. Contudo, há quem ferva em qualquer quantidade de água e não torce, não se ajeita, mas quebra e, é aqui, que, "doa a quem doer", entra Beja e a que parece ser, ainda hoje, a razão do seu ostracismo, da paradoxal existência do seu não lugar... tendo tudo de quase tudo e parecendo nada ter. - Abraço forte,meus amigos e amigas, LB
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Um Arco Triunfal romano entre as ruas dos Infantes e do Touro?
O grande capitel adossado compósito/coríntio de PAX IVLIA e a sua contextualização arqueológica
sábado, 26 de maio de 2012
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
arte pintura alentejo beja
quarta-feira, 20 de julho de 2011
O último grande edifício romano de Beja I
Neste estudo vamos abandonar os capitéis coríntios com representação de folhas de acanto naturalistas, isto é, todos aqueles que apresentam as folhas recortadas e polilobuladas. Referimo-nos sempre aos capitéis maiores, todos em mármore de Trigaches, com cerca de 90 a 105 cm de altura, os quais Antonieta Ribeiro [1] data desde o século I ao II d.C..
Cingir-nos-emos aos seguintes elementos arquitectónicos: aos capitéis coríntios de folhas lisas, especialmente a dois deles [2], um, encontrado no restaurante “Os Infantes”, da rua dos Infantes, em Dezembro de 1982, datado do século III d. C. (RIBEIRO, 1999, 181-185) e o outro, similar, ainda inédito, encontrado na rua do Touro, em Julho de 2005; ao grande capitel compósito/coríntio (caracterização nossa), constituído por dois blocos, também descoberto n”Os Infantes” [3] , em Dezembro de 1982, datado do final do século I ou início do II (RIBEIRO, 1999, 245-256)[4] e à, ainda inédita, cabeça de Touro [5], da rua do Touro, descoberta no mês de Agosto de 2005. Aliamos a estes elementos o fuste fragmentado e liso, de 90 cm de diâmetro por cerca de 180cm de comprimento, que jaz na cave d “Os Infantes” acompanhado de parte de uma estrutura, in situ, de blocos graníticos bem aparelhados, alinhados sensivelmente no sentido EO, portanto, segundo um eixo paralelo ao Decumanus máximo (coincidente com a antiga rua do Touro e com uma calçada romana sob a rua dos Infantes) vindo das Portas romanas de Mértola. Este fuste é semelhante ao de 80 a 85 cm de diâmetro que se expõe no pórtico exterior do Museu Regional e a um outro existente no Parque de Materiais do Município. Por outro lado devem juntar-se, a todos estes elementos, as outras cinco cabeças de Touro (da mesma grandeza) mencionadas, em artigos anteriores, como fazendo parte, provável, do entablamento de um edifício romano, mais os dois capitéis compósitos de coluna, um deles proveniente da rua do Touro, datados de fins do século I ou inícios do II (RIBEIRO, 1999, 235-242), e as duas cornijas fragmentadas [6], também da mesma rua, com cerca de 115x45x85 cm, expostas na referida galeria exterior do museu. Na praça de armas do castelo são inúmeros os fragmentos de cornijas, bases e aduelas, provenientes desta área da cidade, entre as ruas dos Infantes e do Touro.
Deve salientar-se que as obras de grande vulto, dos edifícios do município e das finanças, realizadas nos anos cinquenta do século passado, apesar de situadas na área do fórum pacense, quase nada deram de material arqueológico, mas, quando se faz um buraco qualquer entre as ruas dos Infantes e do Touro, o resultado é surpreendente, como vemos. Será que o fórum está mais chegado para esta área, a do quarteirão entre o museu Regional e a praça da República, do que para a que tem sido convencional chamar de fórum, por estar mais de acordo com o “espaço desimpedido” da praça antiga? O templo estudado por Abel Viana, na área compreendida entre a rua da Moeda e o edifício das Finanças, situar-se-ia dentro do fórum ou fora dele? E de que período seria este templo? Teria integrado o fórum augustano, flaviano, outro ou nenhum? As suas estruturas serão de um templo ou corresponderão ao limite externo ocidental do terrapleno do fórum? As respostas são problemáticas, daí a necessidade de se proceder ao estudo integrado e sistemático do centro histórico da cidade [felizmente, a prospecção arqueológica, realizada por Conceição Lopes, nos últimos três anos,já demonstrou que o referido templo, um dos maiores da Hispânia, se situa no fórum, pelo que é de considerar os elementos arquitectónicos que estudamos como parte provável das estruturas de uma entrada monumental].
Julgamos que seria normal posicionar o fórum a partir de um ou dos dois eixos máximos da cidade (o Cardo – eixo NS – e o Decumanus – eixo EO), simultaneamente utilizados para definir a sua malha ortogonal (os arruamentos perpendiculares entre si)[7] . Podemos localizar o Cardo máximo entre a antiga porta romana de Vipasca (a da rua Brito Camacho, Muro baixo ou do Buraco) [8], passando pela torre medieval [9] da Travessa do Cepo, Beco da rua dos Infantes, Torre de Santa Maria em direcção, entre quintais, ao recanto da rua dos Pintores, situado entre as portas de Avis e as de Moura. Vamos contra a hipótese de Vasco Gil Mantas [10] que, julgando romanas as portas de Aljustrel (que eram medievais, demolidas em 1863) imagina a partir delas o Cardo máximo. Parece-nos, contudo, que se este eixo for localizado onde pensamos serve para estruturar melhor, com o auxílio do Decumanus da rua do Touro, o início do fórum (subentendendo que o seu início se observa a partir do lado este ou sudeste, de onde vem o Decumanus das Portas de Mértola, pois há outro, paralelo, que é axial às Portas de Évora e que deve prosseguir, mais ou menos, entre quintais, passando pela igreja de Santa Maria e largo do Ulmo) (11).
O fórum era, normalmente, rectangular e porticado, destinando-se às funções religiosa (templo), política (cúria) e comercial (basílica e mercado). Por exemplo, ao fórum de Trajano (98-117 d. C.), em Roma, acedia-se por um grande arco de triunfo de um só vão e, estamos convictos, que Pax Ivlia teria também uma construção desta natureza, provavelmente do período anterior, dos Flávios: Vespasiano, Tito e Domiciano. Só um grande edifício, bastante sólido, pode ter resistido ao tempo e à incúria dos homens. Uma construção repleta de colunas é mais frágil e sobrevive, naturalmente, menos tempo do que um arco triunfal, construção mais maciça. Nesta perspectiva, o capitel compósito/coríntio d “Os Infantes” deve ter integrado edifício bastante sólido, provavelmente de um só arco assente no lado coríntio, pilastras poderosas e colunas laterais também da ordem compósita (ver tentativa de reconstituição).
A afinidade entre os elementos que compõem esta tentativa de reconstituição tem a ver obviamente com o local onde foram encontrados, a mesma área, o mesmo mármore, de Trigaches/S.Brissos, o mesmo tipo de cinzelado com trabalho de trépano, a mesma escala e a relação coerente entre os diversos elementos que parecem apontar para um mesmo programa construtivo. Assim, tal como já dissemos anteriormente, seguindo as regras de Vitrúvio, de Vignhola e do bom senso [12], temos para as ordens compósita e coríntia a mesma relação entre os elementos arquitectónicos como consta do quadro anexo.
Esta tentativa de reconstituição não será evidentemente a última, pois trata-se de uma achega, deliberada e polémica, em torno das pedras que se vêem nos museus, as quais, no passado, estiveram colocadas num lugar preciso e tiveram o seu significado político, religioso, económico e social. Hoje vemo-las mais como obras de arte. Como desejamos apresentar ainda uma pequena planta da cidade com o posicionamento provável do fórum e uma outra tentativa de reconstituição do arco triunfal, com mais elementos e dispostos de outro modo, abordaremos então a possível relação entre as cabeças de touro, a lápide epigrafada dedicada a Serápis Panteo, deus dos deuses, e o culto mitraico.
1- RIBEIRO, Maria Antonieta Brandão S. – “Capitéis romanos de Beja”. Beja: CMB, 1999. pp. 145-160.
2- Há um terceiro a servir de alicerce na esquina do lado da Epístola da nave da ermida de S. Sebastião, extramuros, reaproveitamento que só demonstra, analogamente ao de muitos outros elementos arquitectónicos, uma necessidade prática e económica, independentemente da distância a que se encontrava a “pedreira” (ruínas do edifício original) que normalmente fornecia o material. Este, mostrámo-lo a Antonieta Ribeiro (1999, 181-185), enquanto os da rua dos Infantes foram alvo de pequeno artigo, em 1983, expresso na nota 3, infra-escrita.
3- BORRELA, Leonel – “Os capitéis romanos da rua dos Infantes”. In “Diário do Alentejo” de 15 de Janeiro de 1983.
4- Remetemos também o leitor para o nosso estudo sobre a época e características funcionais do capitel, particularidades que partilhámos com outros estudiosos bem antes de iniciarmos a Iconografia Pacense, em 1995. Cf. “Restos monumentais de Pax Júlia (IV)” in Diário do Alentejo” de 8 de Maio de 1998.
5- Cabeça que poderá ser a mesma que foi desenhada no “Diário” da viagem a Portugal de Perez Bayer, em 1782 (Cf. Abel Viana in “ Arquivo de Beja”. Ano 1944,Vol.I, p.44), e que meio século antes, em 1734, foi referenciada, como vimos, pelo padre Pedro Pires Nolasco.
6- VIANA, Abel – “Notas Históricas, Arqueológicas e Etnográficas do Baixo Alentejo”. In “Arquivo de Beja”. Beja: CMB, 1956. Vol. XIII, p. 146-147.
7- Característica de racionalidade urbana já utilizada, na Grécia, por Hipódamo de Mileto (séc. V a. C.). Cf. “Arte Romana”. Lisboa: Plátano, 2001. p.30
8- A qual visitámos, parcialmente, depois da autorização concedida pelo senhor Marçal, com o professor doutor Jorge de Alarcão, a quem apresentámos mais tarde (já lá vão uns quinze anos), numa breve troca de correspondência, uma tentativa de reconstituição desenhística das referidas portas romanas que seriam semelhantes às de Mértola, demolidas em 1876.
9- Torre e traçado, cuja localização deve ter muito em comum com a demolida igreja de S. João (templo romano? Cf. “Iconografia Pacense” in “Diário do Alentejo” de 22, 29 de Setembro e 13 de Outubro de 1995). Entre o hipotético templo romano, situado fora do fórum, mas não longe de uma das suas entradas, - talvez da sua principal entrada - e o espaço ocupado pela torre medieval, continuaria o Cardo máximo de Pax Ivlia.
10- MANTAS, Vasco Gil – “Teledetecção, Cidade e Território: Pax Ivlia”. In “Arquivo de Beja”. Beja: CMB, 1996.Vol.I, Série III, p.13.
11- Em trinta anos nunca vimos, em valas abertas nas ruas dr. Aresta Branco e da Capelinha, quaisquer vestígios de calçada romana que pudessem denunciar a presença do Decumanus axial às portas de Évora, ao contrário do que há um ano se pode observar, na antiga rua do Touro, na vala aberta ao longo do passeio que acompanha o cine teatro Pax Júlia.
BORRELA, Leonel - "ICONOGRAFIA PACENSE- II" In Diário do Alentejo 30 Junho 2006
As cabeças de touro da cidade de Beja
Ver a perspectiva do "friso de ângulo", com as cabeças de touro, na tentativa de reconstituição do post anterior.
No Relatório das Couzas notaveis desta cidade (pelo padre Pedro Pires Nolasco prior de S. João, em 1734), manuscrito da Biblioteca Municipal, constam dados importantíssimos acerca dos túneis que atravessam a cidade; da construção de formigão próxima da igreja do Pé da Cruz, das portas da muralha, etc..
Nas folhas quatro e seguintes podemos ler que «a freguesia de S. João Baptista ocupa a parte ocidental da cidade; tem 620 vizinhos, alguns anos serão menos, passando de seiscentos fogos e duas mil e quinhentas e sessenta e uma almas de sacramento; tem duas confrarias de ordenança a que chamam S. João de fora e S. João de dentro, porque os moradores intramuros têm um capelão e os de fora outro».
A igreja paroquial, situada entre as Ruas do Touro e do Sembrano, é de uma só nave, pavimentada a tijolo, integrando algumas campas de pessoas particulares, enquanto a capela mor, quase toda coberta de campas, tem a sua ousia de pedra feita no ano de 1719. As paredes são de alvenaria e as esquinas de mármore branco, mas muito pequena a respeito de povo e muito tosca. A capela mor é de abóbada pequena e baixa e, pela parte de dentro, tem «arcos de pedra a modo de pernas de aranha» (isto é, tinha nervuras; tinha uma abóbada nervurada e estrelada no intradorso da capela mor), nela está o tabernáculo do Santíssimo Sacramento e no retábulo a imagem de vulto de S. João Baptista titular e principal patrono da igreja; no lado da epístola está a imagem de Santa Maria Madalena, padroeira menor. O arco do cruzeiro é de pedra mármore, todo tosco e antigo - os dois fundamentais (isto é, os pés direitos, as jambas) são duas pequenas e toscas colunas de mármore.
O tecto do corpo da igreja é de madeira, com apainelado largo e frisos, de cerca de 1680; a cobertura é de telha mourisca. Acima do arco da capela mor está colocada uma imagem de Cristo Crucificado de meia grandeza e muito devota; ao lado direito, Nossa Senhora do Pé da Cruz e, ao lado esquerdo, o Santo Evangelista João. Mais acima deste conjunto está um quadro do grande Baptista, representando-o numa floresta, sentado e recostado, junto ao tronco de uma árvore, com um cordeiro do lado esquerdo (um primor de arte, observa o padre Pedro Pires).
A porta principal está ao ocidente e a outra no sul, ao lado da epístola. Tem o corpo da igreja quatro altares mais dois colaterais com seus retábulos dourados ladeando o arco da capela mor. O primeiro da esquerda é o do glorioso S. Braz, bispo e mártir, cuja imagem situada no nicho central está ladeada de S. Luís, bispo, e de Santo António com o Menino; a seguir o altar de S. Vicente Ferrer, ladeado à direita por Santo Agostinho doutor e S. Romao mártir - a imagem de S. Vicente foi colocada na igreja em 1720, à custa do seu grande devoto Agostinho Simões, mercador que foi de roupas inglesas nesta freguesia. Ao lado direito, o altar colateral é o do Sacramento, na sequência do ornato que vem da porta da confraria do S.S. –no meio tem a imagem de Nossa Senhora das Candeias, ladeada pelas imagens de Cristo Nosso Senhor preso à coluna e do Senhor da Cana Verde; o segundo altar quase a meio da nave, em frente ao de S. Vicente Ferrer, é o de Nossa Senhora do O, imagem de glória no meio de uma formosa tribuna entalhada e dourada, com Bula Apostólica de indulgenciar. Entre este altar e o do SS. Sacramento fica o coro donde se reza; e entre este e o altar já nomeado de Nossa e Senhora do O fica o púlpito; e entre o altar do Santíssimo e o altar mor fica a sacristia. Entrando na nave, à esquerda, fica o baptistério, adossando-se-lhe a sacristia da confraria do Santíssimo, com muito suficiente ornato e serviço de prata para os usos das suas funções. A torre sineira, situada à direita da entrada principal, fica saliente à fachada e serve de apoio ao alpendre abobadado, construído em 1719.
Dando para o interior do nartex, embutido na face da torre, está um nicho de pedra fina muito bem lavrada com a imagem de Nossa Senhora da Oliveira, de glória com as mãos postas, de perfeitíssimo feitio com cortinados, mantos e vidraça, porta e lâmpada, tudo com muito custo e muito rico, à custa do devoto dr. padre Xavier Lobo desta cidade e freguesia, no ano de 1728 (julgamos que este nicho é o mesmo, mas sem imagem, que se encontra no pátio do Convento da Conceição, onde também foi reconstruído o presumível portal da demolida igreja paroquial de João).
A folha undécima, fala-nos das «Antigualhas q se achão dispersas nesta freguesia. Nas costas da capela mor da minha igreja, estão duas cabeças de Touro esculpidas em dois grandes mármores, que mostram ser de tempo muito antigo. No frontispício das casas donde mora o padre Manuel Nunez escrivão desta cidade se acha outra semelhante e dentro das mesmas casas se acha sepultado outra figura de um grande boi, e no muro antigo desta cidade e freguesia está outra grande cabeça de Touro […]deviam ser de grande construção, palácio, etc. […] pois que ainda hoje se vê uma cabeça na praça de baixo das janelas da casa da camara desta cidade e outra sobre as portas de Évora». Diz- nos também o padre Pedro Pires Nolasco que só nesta freguesia da cidade se encontram estas coisas, assim tão antigas - «cabeças de boi a que chamam brasão da cidade».
Para a semana que vem tentaremos mostrar, com base: no auto de medição de 1608; na orientação da igreja e nalguns dados fornecidos não só por este manuscrito de 1734, mas também pelo Boletim Municipal de 1919 – 1922, que o edifício, o monumento demolido durante a primeira República, pode ter sido um templo romano reaproveitado1.
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Recordamos a parte segunda deste estudo preliminar sobre a igreja de S. João Baptista, vinda a lume na Iconografia Pacense (cerca de 135 crónicas que escrevemos e ilustrámos, desde 1995 até 2000, para o jornal Diário do Alentejo), porque nem as descobertas fortuitas de espécimes arqueológicos de grande qualidade na cidade permitem, autorizam ou legitimam, uma paragem séria e responsável para pensar afinal naquilo que de grave se anda a fazer. Descobre-se qualquer coisa, retira-se essa coisa e tapa-se, tal como fazem a maioria dos empreiteiros (felizmente há excepções). Nem lhes faremos críticas, pois seguem de perto o exemplo oficial. Quanto ao resto, a profunda razão de ser deste lamento - de um cidadão que ama a cidade onde vive - tem a ver de facto com o capitel e a cabeça de touro, descobertos há poucos dias na vala que se abriu ao longo da Rua do Touro, e que o município fez recolher e salvaguardar nas suas instalações como lhe compete. Contudo, julgamos que, pelo teor da crónica que então escrevemos e que aqui de novo reproduzimos, teria sido aconselhável conhecer melhor o contexto arqueológico-histórico dos achados, pois não duvidamos que a cabeça de touro encontrada teve como primeira notícia histórica o texto que reproduzimos do padre Nolasco e que essa notícia aponta para algo mais importante que não distará muito do local da descoberta: o corpo de um touro, a somar às estruturas do edifício do período romano, visíveis no ex-restaurante “Os Infantes”, ao qual provavelmente pertencia.
In Diário do Alentejo de 23 Junho 2006
1 BORRELA, Leonel – “Igreja de S. João Baptista – II”. In Diário do Alentejo. Beja: Associação de Municípios do Distrito de Beja, 29 de Setembro de 1995.
Entre o que se sabe e o que se ignora
Por exemplo, no estudo de um capitel, já não é mau saber que o é, melhoramos quando lhe identificamos o estilo artístico e, mais ainda, ao apontarmos-lhe uma cronologia aproximada - e é preciso não esquecer que todas estas inferências são já consequência do conhecimento que já temos da gramática decorativa e da sua evolução, das formas que nos rodeiam e dos materiais utilizados. Falta o que ignoramos e passamos, através de lacunas e vestígios incipientes, à suposição sobre o seu lugar exacto no edificio a que pertencia e porquê esse posicionamento e não outro, e, também, se o edificio era um templo, uma igreja, um arco triunfal, ou outra construção por definir.
Só assim conseguimos ultrapassar o simples inventário de um capitel para entrar a sério no campo da investigação, pois há que conhecer a utilidade e o porquê das coisas, além da sua singularidade formal, e relacioná-las com as pessoas.
Publicado no facebook às 15h 11m de 15 de Julho de 2011
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Restos monumentais de Pax Ivlia I - Friso de ângulo com cabeças de touro.
"Iconografia Pacense" in Diário do Alentejo 17 de Abril 1998
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
UMA CABEÇA DE JÚPITER?
domingo, 19 de setembro de 2010
O estado deplorável do património cultural do nosso país.
http://acultura.no.sapo.pt/page7.html.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
O Cupido desaparecido da villa romana dos Pisões, em Beja
O Cupido desaparecido da villa romana dos PisõesCupido, filho de Vénus, a deusa da beleza e do amor, e de Mercúrio, o mensageiro alado dos deuses, é na mitologia romana o mesmo que Eros, filho de Afrodite, também deusa da beleza e do amor, e de Ares, o deus da guerra, é na mitologia grega. Representa a harmonia perfeita entre as paixões do amor e da guerra, esta subordinada àquele, antecipando em milhares de anos a frase e o conceito de “Make love, not war” dos Beatles, da sua época e da sua entusiástica influência.
Cupido, em criança, surpreendia tudo e todos com a sua feliz traquinice. Dotado de asas, tal como seu pai romano, e do bélico aparato de arcos e flechas, de seu avô grego, pôs a facilidade e rapidez de movimento ao serviço da celebração do amor entre os amantes. Escolhia normalmente os mais solitários e lançava-lhes setas directamente aos corações impregnando-os de uma paixão sem remédio, daqui as representações posteriores de uma seta atravessando o coração, divulgadas essencialmente a partir do século XVII e com maior expressividade nos postais ilustrados do século passado.
Cupido, já adulto, tornar-se-ia o mais belo dos deuses, seduzindo mesmo os homens mais duros a abraçarem os sentimentos mais nobres. Como deus, também se perdeu de amores, sendo proverbial, entre os eruditos da mitologia greco-romana, o seu inexcedível amor pela bela Psyché – retrato metafórico da alma que procura, como corpo seu, o corpo do amante, numa conjugação perfeita. Este deus do amor tem sido, de entre os deuses, um dos grandes preferidos da Arte ao longo da história do ocidente europeu. Não é de estranhar vê-lo tantas vezes associado, através das suas flechadas amorosas, ao dia de S. Valentim, protector cristão dos apaixonados.
Quase perdido durante a Idade Média, o espírito humanista, emergente a partir dos séculos XIII e XIV, em Itália, recupera para a arte e para a escrita a cultura clássica, reaparecendo o Cupido, em parte transformado num anjo atencioso, menos narcísico nos seus actos, mais confidente e próximo dos humanos. Através da mentalidade do período clássico barroco, podemos, de entre centenas de obras de arte, observá-lo numa gravura aberta por Jean Massard (1740-1822), concebida por Charles Eisen (1720-1778), para as Cartas Portuguesas interpretadas pelo poeta Claude-Joseph Dorat (1734-1780)[1]. O pormenor da gravura, sobre a célebre janela de Mértola, cativa-nos pela flagrante proximidade entre Cupido e Mariana – se houve seta não sabemos, mas parece ter havido um olhar intenso e sintomático (ao contrário do que proíbe a mitologia, pois um deus não se olhava), além de uma cúmplice troca de palavras.
Expostos, ainda que parcialmente, a figura e os atributos de Cupido, interessa, agora, regressarmos à realidade bejense. Faz tempo, já com algum significado, vai para cerca de dez anos, que desapareceu do Posto de Turismo, então situado na Rua Capitão João Francisco de Sousa, uma bela escultura romana, proveniente da estação arqueológica da Villa Romana de Pisões. A escultura de Cupido deitado (veja-se a fotografia que tomámos aquando da sua exposição, há pouco mais de vinte anos, numa feira de Agosto, em Beja), cinzelada em alto-relevo, a partir de um pequeno bloco de mármore branco de Vila Viçosa ou Estremoz, com perto de 50cm de comprimento, desapareceu durante umas obras de reabilitação do local referido e nunca mais se soube nada dela. Esta reprodução fotográfica tem o objectivo de a tornar conhecida do maior número de pessoas, pois pode haver alguém que a tenha visto noutro local e denuncie a sua posse ilegal. É o que se pode fazer, por agora, sem esquecermos que a Internet também pode e deve ser utilizada na sua busca.
Ignoramos qualquer trabalho de investigação artístico, histórico, ou de outra natureza, sobre este Cupido que, apesar de fragmentado, em três ou quatro partes, permitia, contudo, como se documenta, a leitura fiel da totalidade da obra e dos seus adereços identificativos: ainda criança, cumpridos os calorosos cuidados de mais uma jornada amorosa, descansa e adormece, por fim, totalmente nu, Cupido, protegendo entre os seus braços a aljava com as setas; está sereno, com o corpo ligeiramente reclinado sobre o seu lado esquerdo; um lagarto acompanha-o no repouso.
O elemento mais enigmático, cuja presença não é fácil explicar, é o lagarto, parado, que, tal como Cupido, parece adormecido ou, talvez, expectante pelo acordar do pequeno deus. Na religião cristã o lagarto está associado à vigília protectora do Bem – normalmente repele as serpentes, símbolos do Mal. Mas, no período romano, este lagarto parece representar, julgamos, todos aqueles que não se movem, que estão em estado letárgico no amor, e que esperam pelo acordar de quem os pode socorrer – a não ser que ali, pela Villa de Gaio Atilio Gordo, a deusa Ceres, criticada pelo riso de uma criança, tal como a ironizara Estélio, a quem transformou em lagarto, tivesse pedido um voto de confiança – uma criança tão mansa quanto um lagarto - ao proprietário pelos alimentos que ela exageradamente consumia.
A Villa romana de Pisoes, cujos vestígios já se conheciam, bem antes de se iniciar a sua prospecção, há pouco mais de 40 anos, sob a responsabilidade do arqueólogo bejense, Dr. Fernando Nunes Ribeiro (falecido em Maio de 2009), até princípios de 1974, é datável dos séculos I a IV, sendo de admitir uma breve ocupação visigoda. Cremos que de 1974, ou mais precisamente, de 1976 até 1979 houve uma equipa na direcção da prospecção, constituída por Fernando Nunes, José Luís Soares, Rui Parreira, Monge Soares e Mário L. Sardica. Ainda foi objecto de prospecções posteriores, mas sem a continuidade e o interesse que antes tiveram. Justino M. de Almeida e Fernando B. Ferreira, publicam, em 1969, os primeiros resultados das prospecções; Fernando Nunes publica, ainda em 1972, um estudo, ainda o mais completo, sobre a Villa dos Pisões; José Luís Soares (também falecido em 2009) apresenta, em 1973, uma comunicação sobre um prato de terra sigillata com a sigla Mandatti; João Mário L. Sardica faz, em 1975, uma abordagem complementar às partes urbana, rústica e fructuária; enquanto Maria Luísa V. Costa dá a sua contribuição, em 1986, para o estudo da gramática decorativa dos mosaicos e da sua cronologia; a barragem de Pisões é também alvo de um estudo, em 1986, de António Carvalho Quintela e outros. Actualmente, a recepção turística, possui um pequeno centro de interpretação da casa senhorial romana, composta por mais de quarenta divisões… e não está tudo à vista.
Infelizmente, uma das melhores e mais ricas villae romanas do país, encontra-se, apesar de precariamente visitável, num progressivo estado de abandono. É urgente a organização de um museu de sítio que permita devolver condignamente às ruínas o seu riquíssimo espólio, antes que se perca e disperse ainda mais. É uma tristeza ver o descalabro em que se encontra o estado do valiosíssimo património arqueológico da região.
[1] Lettres d`une chanoinesse de Lsibonne[…]. A la Haye et […]Paris: Lambert, Jorry et Delalain, M.DCC.LXX.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
A funcionalidade medieval da torre de menagem de Beja
Em Beja, já na adolescência, pensávamos na organização de um livro ilustrado, baseado nos pormenores que paulatinamente íamos descobrindo na cidade. O primeiro contacto respeitaria a arquitectura e a sua múltipla funcionalidade no decorrer dos diferentes períodos históricos; o segundo, a evolução da sociedade pacense. Julgámos que tal concepção era um esboço de realização rápida, mas não foi. O futuro próximo que almejávamos revelou-se, afinal, um constante adiamento. Assim, durante todos estes anos, como artista plástico, a maioria das exposições de arte que realizámos, foram e ainda são condicionadas, por vontade própria, ao estudo e divulgação do património cultural de Beja e, consequentemente, à formação de um espólio documental misto que, ditosamente, já está mais perto de vir a ser utilizado como uma base de dados informatizada. A preocupação da adolescência converteu-se numa responsabilidade pessoal de defesa intransigente (não contumaz… porque se fosse!) do património cultural de Beja, para a qual, de facto, nunca lográmos o devido apoio oficial[1]. Abrir as portas a uma qualquer exposição é tarefa fácil, o mais difícil é patrociná-la e, em Beja, patrocina-se com frequência, em detrimento dos valores da terra, a idiossincrasia, não diremos de cada um (pelo respeito que nos merecem certas idiossincrasias), mas a de quem decide, em particular.Passaram quase quarenta anos e aqui estamos nós a braços com uma redacção que constantemente rejeitamos, talvez por já estar cansada de tantas revisões provisórias. Até parece que nos falta firmeza, embora sintamos profundamente o traquejo para avançar. Enfim, apartemo-nos das quase lamúrias e de algumas razões, e passemos ao que melhor caracteriza a Iconografia Pacense: a divulgação de aspectos insuspeitos do nosso património cultural.
Quando, em 1995, a Junta de Freguesia de Portel, patrocinou a publicação de um livrinho ilustrado de nossa autoria, intitulado “Subsídios para a história do castelo de Portel”, há muito que havíamos comparado o sistema de protecção do acesso à sua torre de menagem ao da torre de menagem de Beja. Com efeito, no interior da praça de armas do castelo de Portel, tinha havido até meados do século passado, conforme podemos observar na fotografia do arquivo da antiga Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), datada de 1938, uma torre cilíndrica, de estilo mudéjar, protectora de uma escadaria de caracol que permitia o acesso privado, do interior da alcaiadaria, à torre de menagem. Essa torre de tijolo, fechada superiormente por um coruchéu cónico, era rematada por merlões chanfrados, tais como os da ermida de Santo André e da galilé da Igreja de Santa Maria da Feira, em Beja. Teria sido construída provavelmente no final do século XV ou no início do seguinte, no mesmo local (ou próximo dele) onde antes uma escadaria móvel condicionava o referido acesso.
A comparação, pela semelhança que tentamos estabelecer, entre os acessos às
duas torres de menagem, é viável se atendermos às características arquitectónicas da base do acesso de Portel, parcialmente destruído. Também, no início do actual acesso à torre de Beja (ver fotografias), anteriormente situado no interior de edificações já destruídas[2], observamos no recanto à esquerda da porta ogival (B), os primeiros degraus de uma outra escadaria que inflecte para a esquerda, semelhante à que em Portel condicionava o acesso à torre. Aliás, à semelhança do que aconteceu em Portel e noutros castelos portugueses, o sistema defensivo da entrada da Torre de Menagem de Beja praticamente desapareceu, apesar de ainda restarem vestígios dos cinco cachorros (1, 2, 3, 4 e 5) da madre de alpendre que protegia a sua entrada. O actual acesso pleno, de um e de outro lado, pelo adarve circundante da muralha da alcáçova, é uma fantasia, funcional para turista, mas proibitiva para os tempos medievais, e resulta obviamente de um erro, aquando da reconstituição, na compreensão do seu sistema defensivo. O acesso sinalizado em A poderia comunicar com o adarve, para a direita, mas nunca com a entrada da torre – no local constata-se a dificuldade que houve em disfarçar as incongruências do novo acesso.A Torre de Menagem de Beja não era excepção quanto à restrição de acesso. Apesar do seu aspecto estético, da maravilha de engenharia e arquitectura gótico-mudéjar que apresenta, não estava destinada, como hoje, em princípio, para fins culturais, pois possuía uma função militar de batedora da região circundante e de último reduto defensivo. Salientamos que para o estudo do acesso restrito à torre contam essencialmente os vestígios existentes, a razão e a sedução. Na tentativa de reconstituição que apresentamos, a protecção da escadaria até poderia ter outro formato exterior (prismático, por exemplo), e não se elevam as paredes para que se compreenda melhor o seu posicionamento primitivo. Julgamos, portanto, que a sua realidade histórica é uma hipótese a considerar em futuros estudos do castelo de Beja.
[2] Há, até, uma observação de Abel Viana, a p.392, do 2º volume da revista Arquivo de Beja, de 1945, relativa ao “apagamento”, pela DGEMN, das estruturas da nova alcáçova que ficaria adjacente à torre de menagem, enquanto a velha alcáçova, já desactivada, funcionaria possivelmente na área da actual entrada principal do castelo. De facto, D. Dinis, faz a doação de duas torres (a Guedelha, filho do rabi maior) que estão sobre a porta da sua alcáçova velha contra a vila, em 1306.














