sábado, 26 de maio de 2012

You can see here some aspects of the Roman city of PAX Ivlia: bull heads, large composite capitals, architectural reconstructions, and other topics of interest. Use the translator, if you do not know the portuguese language. Thanks, LB

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

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quarta-feira, 20 de julho de 2011

O último grande edifício romano de Beja I

“O último grande edifício romano de Beja” é um título que por certo vai despertar a curiosidade dos nossos leitores, porém, ele transporta, além dessa sedução, a responsabilidade de num pequeno texto tentarmos discorrer sobre uma hipótese de reconstituição arquitectónica que nos parece viável.

Neste estudo vamos abandonar os capitéis coríntios com representação de folhas de acanto naturalistas, isto é, todos aqueles que apresentam as folhas recortadas e polilobuladas. Referimo-nos sempre aos capitéis maiores, todos em mármore de Trigaches, com cerca de 90 a 105 cm de altura, os quais Antonieta Ribeiro [1] data desde o século I ao II d.C..

Cingir-nos-emos aos seguintes elementos arquitectónicos: aos capitéis coríntios de folhas lisas, especialmente a dois deles [2], um, encontrado no restaurante “Os Infantes”, da rua dos Infantes, em Dezembro de 1982, datado do século III d. C. (RIBEIRO, 1999, 181-185) e o outro, similar, ainda inédito, encontrado na rua do Touro, em Julho de 2005; ao grande capitel compósito/coríntio (caracterização nossa), constituído por dois blocos, também descoberto n”Os Infantes” [3] , em Dezembro de 1982, datado do final do século I ou início do II (RIBEIRO, 1999, 245-256)[4] e à, ainda inédita, cabeça de Touro [5], da rua do Touro, descoberta no mês de Agosto de 2005. Aliamos a estes elementos o fuste fragmentado e liso, de 90 cm de diâmetro por cerca de 180cm de comprimento, que jaz na cave d “Os Infantes” acompanhado de parte de uma estrutura, in situ, de blocos graníticos bem aparelhados, alinhados sensivelmente no sentido EO, portanto, segundo um eixo paralelo ao Decumanus máximo (coincidente com a antiga rua do Touro e com uma calçada romana sob a rua dos Infantes) vindo das Portas romanas de Mértola. Este fuste é semelhante ao de 80 a 85 cm de diâmetro que se expõe no pórtico exterior do Museu Regional e a um outro existente no Parque de Materiais do Município. Por outro lado devem juntar-se, a todos estes elementos, as outras cinco cabeças de Touro (da mesma grandeza) mencionadas, em artigos anteriores, como fazendo parte, provável, do entablamento de um edifício romano, mais os dois capitéis compósitos de coluna, um deles proveniente da rua do Touro, datados de fins do século I ou inícios do II (RIBEIRO, 1999, 235-242), e as duas cornijas fragmentadas [6], também da mesma rua, com cerca de 115x45x85 cm, expostas na referida galeria exterior do museu. Na praça de armas do castelo são inúmeros os fragmentos de cornijas, bases e aduelas, provenientes desta área da cidade, entre as ruas dos Infantes e do Touro.

Deve salientar-se que as obras de grande vulto, dos edifícios do município e das finanças, realizadas nos anos cinquenta do século passado, apesar de situadas na área do fórum pacense, quase nada deram de material arqueológico, mas, quando se faz um buraco qualquer entre as ruas dos Infantes e do Touro, o resultado é surpreendente, como vemos. Será que o fórum está mais chegado para esta área, a do quarteirão entre o museu Regional e a praça da República, do que para a que tem sido convencional chamar de fórum, por estar mais de acordo com o “espaço desimpedido” da praça antiga? O templo estudado por Abel Viana, na área compreendida entre a rua da Moeda e o edifício das Finanças, situar-se-ia dentro do fórum ou fora dele? E de que período seria este templo? Teria integrado o fórum augustano, flaviano, outro ou nenhum? As suas estruturas serão de um templo ou corresponderão ao limite externo ocidental do terrapleno do fórum? As respostas são problemáticas, daí a necessidade de se proceder ao estudo integrado e sistemático do centro histórico da cidade [felizmente, a prospecção arqueológica, realizada por Conceição Lopes, nos últimos três anos,já demonstrou que o referido templo, um dos maiores da Hispânia, se situa no fórum, pelo que é de considerar os elementos arquitectónicos que estudamos como parte provável das estruturas de uma entrada monumental].

Julgamos que seria normal posicionar o fórum a partir de um ou dos dois eixos máximos da cidade (o Cardo – eixo NS – e o Decumanus – eixo EO), simultaneamente utilizados para definir a sua malha ortogonal (os arruamentos perpendiculares entre si)[7] . Podemos localizar o Cardo máximo entre a antiga porta romana de Vipasca (a da rua Brito Camacho, Muro baixo ou do Buraco) [8], passando pela torre medieval [9] da Travessa do Cepo, Beco da rua dos Infantes, Torre de Santa Maria em direcção, entre quintais, ao recanto da rua dos Pintores, situado entre as portas de Avis e as de Moura. Vamos contra a hipótese de Vasco Gil Mantas [10] que, julgando romanas as portas de Aljustrel (que eram medievais, demolidas em 1863) imagina a partir delas o Cardo máximo. Parece-nos, contudo, que se este eixo for localizado onde pensamos serve para estruturar melhor, com o auxílio do Decumanus da rua do Touro, o início do fórum (subentendendo que o seu início se observa a partir do lado este ou sudeste, de onde vem o Decumanus das Portas de Mértola, pois há outro, paralelo, que é axial às Portas de Évora e que deve prosseguir, mais ou menos, entre quintais, passando pela igreja de Santa Maria e largo do Ulmo) (11).

O fórum era, normalmente, rectangular e porticado, destinando-se às funções religiosa (templo), política (cúria) e comercial (basílica e mercado). Por exemplo, ao fórum de Trajano (98-117 d. C.), em Roma, acedia-se por um grande arco de triunfo de um só vão e, estamos convictos, que Pax Ivlia teria também uma construção desta natureza, provavelmente do período anterior, dos Flávios: Vespasiano, Tito e Domiciano. Só um grande edifício, bastante sólido, pode ter resistido ao tempo e à incúria dos homens. Uma construção repleta de colunas é mais frágil e sobrevive, naturalmente, menos tempo do que um arco triunfal, construção mais maciça. Nesta perspectiva, o capitel compósito/coríntio d “Os Infantes” deve ter integrado edifício bastante sólido, provavelmente de um só arco assente no lado coríntio, pilastras poderosas e colunas laterais também da ordem compósita (ver tentativa de reconstituição).

A afinidade entre os elementos que compõem esta tentativa de reconstituição tem a ver obviamente com o local onde foram encontrados, a mesma área, o mesmo mármore, de Trigaches/S.Brissos, o mesmo tipo de cinzelado com trabalho de trépano, a mesma escala e a relação coerente entre os diversos elementos que parecem apontar para um mesmo programa construtivo. Assim, tal como já dissemos anteriormente, seguindo as regras de Vitrúvio, de Vignhola e do bom senso [12], temos para as ordens compósita e coríntia a mesma relação entre os elementos arquitectónicos como consta do quadro anexo.







Portanto, feitas as contas teríamos um edifício com cerca de 14,4m de altura. Se tivesse sido um templo acrescentar-lhe-íamos a altura do frontão triangular; no caso do arco triunfal faltar-lhe-ia ainda o Ático, corpo normalmente paralelipipédico que se sobrepunha ao conjunto, destinado a receber baixos-relevos e inscrições alusivas à finalidade da obra: comemorativa, votiva, etc.. O arco adequado para assentar no capitel coríntio de pilastra, do capitel compósito/coríntio d”Os Infantes”, deverá ter cerca de 5m de diâmetro, medidos no intradorso. A época que propomos para todos os espécimes arqueológicos mencionados é a dos Flávios, final do século I d. C., pois foi o período de maior manifestação da ordem compósita, a mais barroca e exuberante de Roma, a qual deve estar de acordo com as reformas de Vespasiano. Como a maior parte dos investigadores é quase unânime na cronologia proposta para os capitéis compósitos de Beja – finais do século I ou inícios do II - julgamos que será a mesma cronologia, dado o contexto dos achados, para as cabeças de touro, cornijas, fustes lisos e capitéis coríntios de folhas lisas.

Esta tentativa de reconstituição não será evidentemente a última, pois trata-se de uma achega, deliberada e polémica, em torno das pedras que se vêem nos museus, as quais, no passado, estiveram colocadas num lugar preciso e tiveram o seu significado político, religioso, económico e social. Hoje vemo-las mais como obras de arte. Como desejamos apresentar ainda uma pequena planta da cidade com o posicionamento provável do fórum e uma outra tentativa de reconstituição do arco triunfal, com mais elementos e dispostos de outro modo, abordaremos então a possível relação entre as cabeças de touro, a lápide epigrafada dedicada a Serápis Panteo, deus dos deuses, e o culto mitraico.


1- RIBEIRO, Maria Antonieta Brandão S. – “Capitéis romanos de Beja”. Beja: CMB, 1999. pp. 145-160.


2- Há um terceiro a servir de alicerce na esquina do lado da Epístola da nave da ermida de S. Sebastião, extramuros, reaproveitamento que só demonstra, analogamente ao de muitos outros elementos arquitectónicos, uma necessidade prática e económica, independentemente da distância a que se encontrava a “pedreira” (ruínas do edifício original) que normalmente fornecia o material. Este, mostrámo-lo a Antonieta Ribeiro (1999, 181-185), enquanto os da rua dos Infantes foram alvo de pequeno artigo, em 1983, expresso na nota 3, infra-escrita.

3- BORRELA, Leonel – “Os capitéis romanos da rua dos Infantes”. In “Diário do Alentejo” de 15 de Janeiro de 1983.

4- Remetemos também o leitor para o nosso estudo sobre a época e características funcionais do capitel, particularidades que partilhámos com outros estudiosos bem antes de iniciarmos a Iconografia Pacense, em 1995. Cf. “Restos monumentais de Pax Júlia (IV)” in Diário do Alentejo” de 8 de Maio de 1998.

5- Cabeça que poderá ser a mesma que foi desenhada no “Diário” da viagem a Portugal de Perez Bayer, em 1782 (Cf. Abel Viana in “ Arquivo de Beja”. Ano 1944,Vol.I, p.44), e que meio século antes, em 1734, foi referenciada, como vimos, pelo padre Pedro Pires Nolasco.

6- VIANA, Abel – “Notas Históricas, Arqueológicas e Etnográficas do Baixo Alentejo”. In “Arquivo de Beja”. Beja: CMB, 1956. Vol. XIII, p. 146-147.

7- Característica de racionalidade urbana já utilizada, na Grécia, por Hipódamo de Mileto (séc. V a. C.). Cf. “Arte Romana”. Lisboa: Plátano, 2001. p.30

8- A qual visitámos, parcialmente, depois da autorização concedida pelo senhor Marçal, com o professor doutor Jorge de Alarcão, a quem apresentámos mais tarde (já lá vão uns quinze anos), numa breve troca de correspondência, uma tentativa de reconstituição desenhística das referidas portas romanas que seriam semelhantes às de Mértola, demolidas em 1876.

9- Torre e traçado, cuja localização deve ter muito em comum com a demolida igreja de S. João (templo romano? Cf. “Iconografia Pacense” in “Diário do Alentejo” de 22, 29 de Setembro e 13 de Outubro de 1995). Entre o hipotético templo romano, situado fora do fórum, mas não longe de uma das suas entradas, - talvez da sua principal entrada - e o espaço ocupado pela torre medieval, continuaria o Cardo máximo de Pax Ivlia.

10- MANTAS, Vasco Gil – “Teledetecção, Cidade e Território: Pax Ivlia”. In “Arquivo de Beja”. Beja: CMB, 1996.Vol.I, Série III, p.13.

11- Em trinta anos nunca vimos, em valas abertas nas ruas dr. Aresta Branco e da Capelinha, quaisquer vestígios de calçada romana que pudessem denunciar a presença do Decumanus axial às portas de Évora, ao contrário do que há um ano se pode observar, na antiga rua do Touro, na vala aberta ao longo do passeio que acompanha o cine teatro Pax Júlia.

12- MACIEL, M. Justino – “Vitrúvio - tratado de Arquitectura”. Lisboa: IST Press, 2006; VIGNHOLA – “Regras das sinco ordens de architectura”. Coimbra: Real Imprensa da Universidade, 1787. pp.53-54, Estampas 1, 3 e 35.


BORRELA, Leonel - "ICONOGRAFIA PACENSE- II" In Diário do Alentejo 30 Junho 2006






Tentativa de reconstituição de parte do alçado principal de uma estrutura romana (Arco Triunfal?) compósito/coríntia integrando alguns dos elementos arquitectónicos encontrados na área situada entre as ruas do Infantes, do Touro, abside de S. João e antiga rua da Torrinha. 

As cabeças de touro da cidade de Beja

Ilustração: planta aproximada de uma das cabeças de touro, a da esquerda, situada na galeria exterior do Museu Regional de Beja, cujo "acervo arquitectónico" romano, entre fuste liso fragmentado, cabeças de touro, capitéis compósitos e cornijas, é quase todo proveniente da área delimitada entre as ruas dos Infantes, do Touro e extremos do Largo da Conceição (entre a ábside da demolida igreja de S. João e a antiga Rua da Torrinha), portanto, provavelmente, do extremo Estesudeste do Forum de Pax Ivlia.
Ver a perspectiva do "friso de ângulo", com as cabeças de touro, na tentativa de reconstituição do post anterior.



No Relatório das Couzas notaveis desta cidade (pelo padre Pedro Pires Nolasco prior de S. João, em 1734), manuscrito da Biblioteca Municipal, constam dados importantíssimos acerca dos túneis que atravessam a cidade; da construção de formigão próxima da igreja do Pé da Cruz, das portas da muralha, etc..

Nas folhas quatro e seguintes podemos ler que «a freguesia de S. João Baptista ocupa a parte ocidental da cidade; tem 620 vizinhos, alguns anos serão menos, passando de seiscentos fogos e duas mil e quinhentas e sessenta e uma almas de sacramento; tem duas confrarias de ordenança a que chamam S. João de fora e S. João de dentro, porque os moradores intramuros têm um capelão e os de fora outro».

A igreja paroquial, situada entre as Ruas do Touro e do Sembrano, é de uma só nave, pavimentada a tijolo, integrando algumas campas de pessoas particulares, enquanto a capela mor, quase toda coberta de campas, tem a sua ousia de pedra feita no ano de 1719. As paredes são de alvenaria e as esquinas de mármore branco, mas muito pequena a respeito de povo e muito tosca. A capela mor é de abóbada pequena e baixa e, pela parte de dentro, tem «arcos de pedra a modo de pernas de aranha» (isto é, tinha nervuras; tinha uma abóbada nervurada e estrelada no intradorso da capela mor), nela está o tabernáculo do Santíssimo Sacramento e no retábulo a imagem de vulto de S. João Baptista titular e principal patrono da igreja; no lado da epístola está a imagem de Santa Maria Madalena, padroeira menor. O arco do cruzeiro é de pedra mármore, todo tosco e antigo - os dois fundamentais (isto é, os pés direitos, as jambas) são duas pequenas e toscas colunas de mármore.

O tecto do corpo da igreja é de madeira, com apainelado largo e frisos, de cerca de 1680; a cobertura é de telha mourisca. Acima do arco da capela mor está colocada uma imagem de Cristo Crucificado de meia grandeza e muito devota; ao lado direito, Nossa Senhora do Pé da Cruz e, ao lado esquerdo, o Santo Evangelista João. Mais acima deste conjunto está um quadro do grande Baptista, representando-o numa floresta, sentado e recostado, junto ao tronco de uma árvore, com um cordeiro do lado esquerdo (um primor de arte, observa o padre Pedro Pires).

A porta principal está ao ocidente e a outra no sul, ao lado da epístola. Tem o corpo da igreja quatro altares mais dois colaterais com seus retábulos dourados ladeando o arco da capela mor. O primeiro da esquerda é o do glorioso S. Braz, bispo e mártir, cuja imagem situada no nicho central está ladeada de S. Luís, bispo, e de Santo António com o Menino; a seguir o altar de S. Vicente Ferrer, ladeado à direita por Santo Agostinho doutor e S. Romao mártir - a imagem de S. Vicente foi colocada na igreja em 1720, à custa do seu grande devoto Agostinho Simões, mercador que foi de roupas inglesas nesta freguesia. Ao lado direito, o altar colateral é o do Sacramento, na sequência do ornato que vem da porta da confraria do S.S. –no meio tem a imagem de Nossa Senhora das Candeias, ladeada pelas imagens de Cristo Nosso Senhor preso à coluna e do Senhor da Cana Verde; o segundo altar quase a meio da nave, em frente ao de S. Vicente Ferrer, é o de Nossa Senhora do O, imagem de glória no meio de uma formosa tribuna entalhada e dourada, com Bula Apostólica de indulgenciar. Entre este altar e o do SS. Sacramento fica o coro donde se reza; e entre este e o altar já nomeado de Nossa e Senhora do O fica o púlpito; e entre o altar do Santíssimo e o altar mor fica a sacristia. Entrando na nave, à esquerda, fica o baptistério, adossando-se-lhe a sacristia da confraria do Santíssimo, com muito suficiente ornato e serviço de prata para os usos das suas funções. A torre sineira, situada à direita da entrada principal, fica saliente à fachada e serve de apoio ao alpendre abobadado, construído em 1719.

Dando para o interior do nartex, embutido na face da torre, está um nicho de pedra fina muito bem lavrada com a imagem de Nossa Senhora da Oliveira, de glória com as mãos postas, de perfeitíssimo feitio com cortinados, mantos e vidraça, porta e lâmpada, tudo com muito custo e muito rico, à custa do devoto dr. padre Xavier Lobo desta cidade e freguesia, no ano de 1728 (julgamos que este nicho é o mesmo, mas sem imagem, que se encontra no pátio do Convento da Conceição, onde também foi reconstruído o presumível portal da demolida igreja paroquial de João).

A folha undécima, fala-nos das «Antigualhas q se achão dispersas nesta freguesia. Nas costas da capela mor da minha igreja, estão duas cabeças de Touro esculpidas em dois grandes mármores, que mostram ser de tempo muito antigo. No frontispício das casas donde mora o padre Manuel Nunez escrivão desta cidade se acha outra semelhante e dentro das mesmas casas se acha sepultado outra figura de um grande boi, e no muro antigo desta cidade e freguesia está outra grande cabeça de Touro […]deviam ser de grande construção, palácio, etc. […] pois que ainda hoje se vê uma cabeça na praça de baixo das janelas da casa da camara desta cidade e outra sobre as portas de Évora». Diz- nos também o padre Pedro Pires Nolasco que só nesta freguesia da cidade se encontram estas coisas, assim tão antigas - «cabeças de boi a que chamam brasão da cidade».

Para a semana que vem tentaremos mostrar, com base: no auto de medição de 1608; na orientação da igreja e nalguns dados fornecidos não só por este manuscrito de 1734, mas também pelo Boletim Municipal de 1919 – 1922, que o edifício, o monumento demolido durante a primeira República, pode ter sido um templo romano reaproveitado1.

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Recordamos a parte segunda deste estudo preliminar sobre a igreja de S. João Baptista, vinda a lume na Iconografia Pacense (cerca de 135 crónicas que escrevemos e ilustrámos, desde 1995 até 2000, para o jornal Diário do Alentejo), porque nem as descobertas fortuitas de espécimes arqueológicos de grande qualidade na cidade permitem, autorizam ou legitimam, uma paragem séria e responsável para pensar afinal naquilo que de grave se anda a fazer. Descobre-se qualquer coisa, retira-se essa coisa e tapa-se, tal como fazem a maioria dos empreiteiros (felizmente há excepções). Nem lhes faremos críticas, pois seguem de perto o exemplo oficial. Quanto ao resto, a profunda razão de ser deste lamento - de um cidadão que ama a cidade onde vive - tem a ver de facto com o capitel e a cabeça de touro, descobertos há poucos dias na vala que se abriu ao longo da Rua do Touro, e que o município fez recolher e salvaguardar nas suas instalações como lhe compete. Contudo, julgamos que, pelo teor da crónica que então escrevemos e que aqui de novo reproduzimos, teria sido aconselhável conhecer melhor o contexto arqueológico-histórico dos achados, pois não duvidamos que a cabeça de touro encontrada teve como primeira notícia histórica o texto que reproduzimos do padre Nolasco e que essa notícia aponta para algo mais importante que não distará muito do local da descoberta: o corpo de um touro, a somar às estruturas do edifício do período romano, visíveis no ex-restaurante “Os Infantes”, ao qual provavelmente pertencia.

In Diário do Alentejo de 23 Junho 2006


1 BORRELA, Leonel – “Igreja de S. João Baptista – II”. In Diário do Alentejo. Beja: Associação de Municípios do Distrito de Beja, 29 de Setembro de 1995.

Entre o que se sabe e o que se ignora

Já dizia um novelista francês, André Gide (1869-1951), que entre o que se sabe e o que se ignora, está o que se supõe. - É esta a relatividade do conhecimento que nos acompanha.

Por exemplo, no estudo de um capitel, já não é mau saber que o é, melhoramos quando lhe identificamos o estilo artístico e, mais ainda, ao apontarmos-lhe uma cronologia aproximada - e é preciso não esquecer que todas estas inferências são já consequência do conhecimento que já temos da gramática decorativa e da sua evolução, das formas que nos rodeiam e dos materiais utilizados. Falta o que ignoramos e passamos, através de lacunas e vestígios incipientes, à suposição sobre o seu lugar exacto no edificio a que pertencia e porquê esse posicionamento e não outro, e, também, se o edificio era um templo, uma igreja, um arco triunfal, ou outra construção por definir.
Só assim conseguimos ultrapassar o simples inventário de um capitel para entrar a sério no campo da investigação, pois há que conhecer a utilidade e o porquê das coisas, além da sua singularidade formal, e relacioná-las com as pessoas.

Publicado no facebook  às 15h 11m de 15 de Julho de 2011



Ilustração: tentativa de reconstituição e posicionamento, num entablamento romano, de um "friso de ângulo" (denominação que criámos a partir da conhecida janela ângular ou de esquina) constituido por duas cabeças de touro, perpendiculares entre si e solidárias no mesmo bloco de mármore aparelhado - colecção do Museu Regional de Beja.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Restos monumentais de Pax Ivlia I - Friso de ângulo com cabeças de touro.

Restos monumentais de Pax Julia (I)

A arquitectura romana dos edifícios religiosos, públicos e civis, era grandiosa, profusamente decorada com escultura, pintura, mosaico e estuques relevados e coloridos. Eram construções que glorificavam o imperador, as divindades e os grandes feitos de armas, queriam-se magnificentes e eternas.

O domínio de Roma estendia-se pelo mundo conhecido de então, chegando a integrar quase toda a Europa, boa parte da Ásia ocidental e todo o norte de África, distintas e longínquas partes do império interligadas pelo imenso Mediterrâneo.

Aqui, na província baixo alentejana, parte maior da antiga Lusitânia, cuja capital era Mérida, conservam Beja, Mértola, Vidigueira, Santiago do Cacém (Miróbriga), Grândola (Tróia) e Alcácer do Sal núcleos importantes daquele passado histórico, ainda mais valorizado por quanto se sabe ter sido Pax Julia a sede de um convento jurídico que se estendia para lá de Évora até aos limites de Scalabis (Santarém), a outra das três sedes em que se dividiu a Lusitânia.

É, essencialmente, a partir do século XVI, após a descoberta, na herdade da Lobeira, da famosa lápide votiva, dedicada por Pax Julia ao imperador Comodo, que Beja romana começa a sair do anonimato em que se encontrava - os achados ocasionais de grandes mármores trabalhados veiculam assim maior relevância, tendo de ser vistos com outros olhos, pois pertenciam àquela cidade onde se comemorara a paz luso-romana. Essa lápide, ainda hoje, depois de ter, desde o século XVI, figurado em todos os edifícios onde funcionou o município pacense, se encontra exposta no cimo da escadaria principal da actual Câmara Municipal à Praça da República.

Já no século XVIII, Félix Caetano da Silva, bejense, autor da História das Antiguidades de Beja, o padre Pires Nolasco nas suas memórias paroquiais e o bispo D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas nos falavam da grandeza, quantidade e antiguidade, das cabeças de touro, capitéis, fustes, frisos, escadarias e outras estruturas ainda subsistentes como sejam as portas de Avis, de Évora e de Mértola (não referindo, qualquer dos autores, a romana de "Santa Catarina» ou de "Vipasca», ali à Rua Dr. Brito Camacho, antiga do Buraco, porque naturalmente já estaria desactivada e destruída há muito tempo, abrindo-se uma outra, a medieval de Aljustrel também desapareci¬da na voragem das demolições levadas a cabo pelo camartelo do progresso durante a segunda metade do século XIX e seguinte)

À custa das demolições oitocentistas, avoluma-se ainda mais a já valiosa colecção arqueológica que Cenáculo organizara 100 anos antes no seu Museu Sesinando Cenáculo Pacense, um dos primeiros do seu género em Portugal, então instalado no antigo Colégio dos Jesuítas.

Infelizmente, as esculturas figurativas e outras peças que hoje deveriam estar em Beja, dada a sua raridade e qualidade de execução, e porque são de cá, encontram-se actualmente expostas no Claustro do Museu de Évora, cidade para onde Cenáculo levou então parte da "sua" colecção.

Agora, passados outros 100 anos, Beja continua a ver constantemente enriquecida a sua história sob domínio romano. Em 1982, descobria-se numa fossa de edificação antiga da Rua dos Infantes, no restaurante "Os Infantes", um grande capitel romano, de estilo compósito/coríntio, possivelmente o maior em volumetria da Península Ibérica, além de estruturas in situ , um fuste liso fragmentado e um outro capitel coríntio de folhas de acanto lisas; e, em 1995, pelo mês de Maio, durante obras de conservação de um muro e beneficiação exterior do quartel da GNR (antigo Colégio dos Jesuítas), encontraram-se mais um fragmento de cabeça de touro, um capitel informe, delineado e inacabado, além de um outro, corintizante também de tipologia rara para a cidade. Em suma, um rol de peças monumentais que passaremos a descrever.

Algumas das cabeças de touro da antiga Pax Julia, referimo-nos às mais monumentais, às duas de maior dimensão que se encontram expostas na galeria exterior do Museu Regional de Beja, entre capitéis compósitos e corintios e cornijas de que vos iremos falar, integram um conjunto de cerca de nove ou dez, dispersas pela muralha da cidade, Igreja de Santa Maria, Ermida de S. Sebastião (depósito de material lítico do Museu), Tanque do Cano e praça de armas do castelo.

Essas duas cabeças têm sido, ao que sabemos, vistas isoladamente, não se relacionando a sua função estrutural e decorativa com um determinado posicionamento no edifício a que pertenceria. Analisando, mesmo que superficialmente, uma das cabeças, constatamos que houve um desbaste lateral, profundo, sem dúvida muito posterior ao período romano, cuja intenção seria permitir com maior facilidade encaixá-la numa parede - sabe-se que as duas cabeças estavam colocadas na abside da demolida Igreja de S. João, orientadas para a antiga Rua do Touro (cf. "Iconografia Pacense” in Diário do Alentejo Setembro/Outubro de 95).

A outra mostra-nos uma cabeça quase sem "retoques" posteriores, provida no cimo de saliência rectangular destinada a suportar alguma coisa, talvez uma cornija ou outro elemento arquitectónico; o seu peito e espádua são fortes e bastante relevados do bloco paralelepipédico em que foram esculpidos, notando-se, à direita, boa parte da espádua de uma outra cabeça e peito há muito desaparecidos.

Segundo esta sumária análise, teríamos um bloco com duas cabeças salientes, de faces contíguas, perpendiculares entre si. No templo chamado de Minerva (século III d.C.), da cidade numida de Theveste (actual Tébessa) na Argélia, raro pela dis¬posição de dois frisos sobrepostos, profusamente decorados, podemos ver a representação de duas cabeças de touro baixo relevadas, uma em cada face do ângulo, sobre uma das colunas corintias de esquina; sobre as colunas seguintes, em cada face do templo, sobrepõe-se, sempre, uma cabeça de touro (cf. Vol. VII das Grandes Descobertas da Arqueologia, Planeta Agostini, Barcelona, 1988).

Haverá mais exemplos da utilização de um friso angular, assim lhe chamamos nós, com estas características de simetria; do tipo de edifício, público ou religioso, a que pertenceria, ou pertenceriam, algumas das cabeças de touro da cidade, nada sabemos, nem conhecemos a sua localização exacta, embora o espólio, amplamente reutilizado ao longo dos séculos, na área mais elevada aponte para os grandes edifícios do fórum, naturalmente situado entre o Convento da Conceição e o extremo contrário da Praça da República, junto à Igreja da Misericórdia.

Porém, no seio de tantas incertezas, uma observação nos parece correcta: pelo menos uma das cabeças de touro da cidade romana era perpendicular a uma outra do mesmo bloco constituindo um friso angular, raro no nosso País.






Cabeça de touro romana do Museu Regional de Beja. Tentativa de reconstituição de um friso de angulo com duas cabeças de touro. Altura 70 cm; largura 80 cm. Foto e desenho do autor

"Iconografia Pacense" in Diário do Alentejo 17 de Abril 1998

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

UMA CABEÇA DE JÚPITER?







A cabeça romana de mármore que hoje divulgamos foi encontrada, em recolha de superfície, há cerca de vinte e cinco anos, numa estação arqueológica da freguesia de Baleizão, conhecida pelo nome de Lamarim. Adquirimo-la, então, antes que desaparecesse da cidade levada por algum estrangeiro ou curioso. A sua história ocasionou-lhe um percurso atribulado. Com efeito, um arqueólogo nosso conhecido - ao qual prestámos colaboração no início da prospecção arqueológica das ruínas romanas da Rua do Sembrano – nessa altura técnico superior dos Serviços de Arqueologia da Zona Sul e, mais tarde, professor na Universidade de Évora, ao saber da existência da peça pediu-no-la para a estudar e publicar, resultando dessa cedência o seu desaparecimento e, ao que parece, nunca chegou a ser publicada (se o foi, se alguém sabe de mais alguma coisa a seu respeito, agradecemos que nos diga, para corrigir este artigo).

Passaram-se quase vinte anos e, quando frequentámos, em 2003, o 4º semestre do curso de História da Universidade de Évora, integrámos uma das fotografias que possuíamos da referida cabeça num dos trabalhos práticos da cadeira de Métodos e Técnicas de Arqueologia, leccionada pelo Dr. Panagiotis Sarantopoulos que, surpreendido, nos informou que o referido exemplar estava guardado no laboratório de arqueologia. Abreviando: embora, aparentemente, nada obstasse a devolução da peça, a situação não se alterava, até que na sexta-feira passada teve, como se costuma dizer, quando tudo corre bem, um final feliz. Já a temos de novo… ao fim de vinte e cinco anos, e, agora, já todos os nossos leitores e investigadores a podem ver e estudar, neste caso, preferencialmente, melhor do que nós.

A cabeça de mármore branco, provavelmente de Estremoz, pesa 1,5 Kg e tem as seguintes dimensões máximas: Altura – 16 cm; Largura – 11 cm; Espessura ou profundidade – 7,5 cm. Segundo a Carta Corográfica de Portugal, Nº43-B Moura, de 1978, as coordenadas Gauss do achado correspondem a: M- 235,6; P- 121,4; Z- 190. Reutilizando o nosso texto relativo ao local, situado a 4000m a NNO de Baleizão, esclarecíamos, entre outros aspectos, que a toponímia Lamarim já nos referenciava terras de barro, alagadiças, praticamente intransitáveis durante a época das chuvas. Um barranco separa essa área da encosta que lhe fica a nascente, na qual se observam diversos muros, tégulae, ímbrices, mármores decorados, muita terra sigillata, fragmentos de lucernas, etc..

Inicialmente julgámos que a cabeça representava Sileno, fazendo jus à orelha comprida, de animal, e às barbas que poderiam caracterizar uma pessoa mais velha, como atributos identificáveis da figura mitológica que acompanha Baco como seu preceptor; poderia até ser um sátiro ou um fauno, dada a capacidade que estes entes da mitologia têm de se disfarçarem, ou de outros se disfarçarem neles, para conseguirem os seus objectivos. Estávamos, portanto, a colocar o trabalho artístico na senda greco-romana de Dionísio e Baco, festas, divertimentos, copos, volúpia, etc., hipótese que não seria exagerada dada a quantidade de tampas de sepultura romanas em forma de pipa dedicadas simbolicamente ao deus Baco. Mas, não nos parece que assim seja. Observando melhor a pequena escultura, vemos como ela de facto conserva no mundo artístico romano um determinado ideal de representação da arte helénica, um rosto vigoroso e sério, fora do comum dos mortais e dos deuses menores; a metade direita do rosto permite-nos ir mais longe na análise: a orelha é de facto animalesca, pontiaguda, tal como o chifre de carneiro que a envolve sobressaindo ligeiramente, e que na primeira leitura não identificámos. O trabalho de cinzel e de trépano permitiu, cremos, a execução de uma obra escultórica muito próxima das que se produziram no início do século II, ao tempo do imperador Adriano (117-138), lembrando o apurado trabalho das madeixas de cabelo soltas, quase vivas, porém idealizadas da escultura de Antínoo (Cf. “Historia de España”, tomo II, Dir. Ramón Menéndez Pidal, MADRID: Espasa Calpe, S. A., 1938. pp. 647-689), o escravo favorito de Adriano. Muitas outras esculturas apresentam um estilo semelhante, como a de Septímio Severo, exposta no Museu Capitolino, em Roma, embora esta seja do início do século III, pois não foram poucas as vezes que ao realismo romano sucedeu o ideal grego).

Consideramos que esses pormenores são suficientes para que possamos atribuir a cabeça do Lamarim a Júpiter, o deus máximo do panteão romano, numa das suas muitas metamorfoses, neste caso, provavelmente, como Júpiter-Amon. Segundo a mitologia, Júpiter, escapou à ira de Saturno, seu pai, e foi criado, escondido na ilha de Creta, pela cabra Amalteia, sua ama. Mais tarde, senhor do Céu e da Terra, haveria de perseguir os seus irmãos sob a figura de carneiro. Sempre que queria algo problemático disfarçava-se ora de Sátiro para conquistar Antíope, ora de Touro para arrebatar Europa, ora de Cisne, de Águia, enfim, dele tudo dependia, tinha um poder infinito. Júpiter foi ganhando entre os devotos qualidades inerentes às atribuições que lhe davam no campo, nas casas, na moral. Prestavam-lhe um culto de Estado, deus supremo do Capitólio, chamavam-lhe Optimus Maximus. Os egípcios acabaram por venerá-lo como Júpiter Amon, junção do seu deus Amon com o dos romanos, e o atributo que o distinguia era um par de chifres de carneiro, simbologia do Sol. Na Lusitânia foi grande o culto a Júpiter.

Outro aspecto muito importante, para se puder avaliar a devoção, a cultura e a economia dos povos desta região da Lusitânia, prende-se com a produção local desta e de outras esculturas. Jorge Alarcão esclarece-nos (“Portugal Romano”. Lisboa: Verbo, 1983. p. 211; acerca de Júpiter pp. 134,165,168, 170 e 179) que “Das estátuas de divindades, muitas são obras lusitanas; assim, as cabeças de Endovélico encontradas no santuário de São Miguel da Mota (Alandroal), atribuíveis ao século I d. C.; as duas cabeças de Conimbriga, representativas de Vénus ou Diana; talvez ainda a estátua de Vénus, de Santiago do Cacém, da qual, infelizmente, pouco resta. Os Silenos do teatro de Lisboa serão também locais.”. O trabalho de cinzel da cabeça de Júpiter (?) que estudamos foi abandonado quando a parte superior esquerda se separou, deixando ainda visível o tratamento menos minucioso e em bruto desse lado fracturado. Há mais de vinte anos identificámos uma villa na horta de Vale do Bispo, assim como o aqueduto romano que ainda hoje a serve e que deveria, há quase dois mil anos, servir com abundância de água a oficina de canteiro que lá funcionava. Há pouco mais de quinze anos o seu proprietário, sr. José Maria, já falecido, retirou da terra várias árulas de mármore branco, anepígrafes, apresentando uma delas por finalizar as molduras da base e da cornija. Ofereceram-nas ou venderam-nas, não se sabe a quem.

Considerados estes aspectos singulares de uma peça do património cultural que afinal não se perdeu, e que está longe de estar convenientemente estudada, esperemos que pelo menos estas achegas sirvam para reavivar o debate, há muito sumido, em torno da emergência da investigação do património cultural histórico e arqueológico da nossa região.



Cf. BORRELA, Leonel – “Iconografia Pacense - Uma cabeça de Júpiter?”, in Diário do Alentejo de 6 de Abril de 2007.