"Iconografia Pacense" in Diário do Alentejo 17 de Abril 1998
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Restos monumentais de Pax Ivlia I - Friso de ângulo com cabeças de touro.
"Iconografia Pacense" in Diário do Alentejo 17 de Abril 1998
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
UMA CABEÇA DE JÚPITER?
domingo, 19 de setembro de 2010
O estado deplorável do património cultural do nosso país.
http://acultura.no.sapo.pt/page7.html.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
O Cupido desaparecido da villa romana dos Pisões, em Beja

Cupido, filho de Vénus, a deusa da beleza e do amor, e de Mercúrio, o mensageiro alado dos deuses, é na mitologia romana o mesmo que Eros, filho de Afrodite, também deusa da beleza e do amor, e de Ares, o deus da guerra, é na mitologia grega. Representa a harmonia perfeita entre as paixões do amor e da guerra, esta subordinada àquele, antecipando em milhares de anos a frase e o conceito de “Make love, not war” dos Beatles, da sua época e da sua entusiástica influência.
Cupido, em criança, surpreendia tudo e todos com a sua feliz traquinice. Dotado de asas, tal como seu pai romano, e do bélico aparato de arcos e flechas, de seu avô grego, pôs a facilidade e rapidez de movimento ao serviço da celebração do amor entre os amantes. Escolhia normalmente os mais solitários e lançava-lhes setas directamente aos corações impregnando-os de uma paixão sem remédio, daqui as representações posteriores de uma seta atravessando o coração, divulgadas essencialmente a partir do século XVII e com maior expressividade nos postais ilustrados do século passado.
Cupido, já adulto, tornar-se-ia o mais belo dos deuses, seduzindo mesmo os homens mais duros a abraçarem os sentimentos mais nobres. Como deus, também se perdeu de amores, sendo proverbial, entre os eruditos da mitologia greco-romana, o seu inexcedível amor pela bela Psyché – retrato metafórico da alma que procura, como corpo seu, o corpo do amante, numa conjugação perfeita. Este deus do amor tem sido, de entre os deuses, um dos grandes preferidos da Arte ao longo da história do ocidente europeu. Não é de estranhar vê-lo tantas vezes associado, através das suas flechadas amorosas, ao dia de S. Valentim, protector cristão dos apaixonados.
Quase perdido durante a Idade Média, o espírito humanista, emergente a partir dos séculos XIII e XIV, em Itália, recupera para a arte e para a escrita a cultura clássica, reaparecendo o Cupido, em parte transformado num anjo atencioso, menos narcísico nos seus actos, mais confidente e próximo dos humanos. Através da mentalidade do período clássico barroco, podemos, de entre centenas de obras de arte, observá-lo numa gravura aberta por Jean Massard (1740-1822), concebida por Charles Eisen (1720-1778), para as Cartas Portuguesas interpretadas pelo poeta Claude-Joseph Dorat (1734-1780)[1]. O pormenor da gravura, sobre a célebre janela de Mértola, cativa-nos pela flagrante proximidade entre Cupido e Mariana – se houve seta não sabemos, mas parece ter havido um olhar intenso e sintomático (ao contrário do que proíbe a mitologia, pois um deus não se olhava), além de uma cúmplice troca de palavras.
Expostos, ainda que parcialmente, a figura e os atributos de Cupido, interessa, agora, regressarmos à realidade bejense. Faz tempo, já com algum significado, vai para cerca de dez anos, que desapareceu do Posto de Turismo, então situado na Rua Capitão João Francisco de Sousa, uma bela escultura romana, proveniente da estação arqueológica da Villa Romana de Pisões. A escultura de Cupido deitado (veja-se a fotografia que tomámos aquando da sua exposição, há pouco mais de vinte anos, numa feira de Agosto, em Beja), cinzelada em alto-relevo, a partir de um pequeno bloco de mármore branco de Vila Viçosa ou Estremoz, com perto de 50cm de comprimento, desapareceu durante umas obras de reabilitação do local referido e nunca mais se soube nada dela. Esta reprodução fotográfica tem o objectivo de a tornar conhecida do maior número de pessoas, pois pode haver alguém que a tenha visto noutro local e denuncie a sua posse ilegal. É o que se pode fazer, por agora, sem esquecermos que a Internet também pode e deve ser utilizada na sua busca.
Ignoramos qualquer trabalho de investigação artístico, histórico, ou de outra natureza, sobre este Cupido que, apesar de fragmentado, em três ou quatro partes, permitia, contudo, como se documenta, a leitura fiel da totalidade da obra e dos seus adereços identificativos: ainda criança, cumpridos os calorosos cuidados de mais uma jornada amorosa, descansa e adormece, por fim, totalmente nu, Cupido, protegendo entre os seus braços a aljava com as setas; está sereno, com o corpo ligeiramente reclinado sobre o seu lado esquerdo; um lagarto acompanha-o no repouso.
O elemento mais enigmático, cuja presença não é fácil explicar, é o lagarto, parado, que, tal como Cupido, parece adormecido ou, talvez, expectante pelo acordar do pequeno deus. Na religião cristã o lagarto está associado à vigília protectora do Bem – normalmente repele as serpentes, símbolos do Mal. Mas, no período romano, este lagarto parece representar, julgamos, todos aqueles que não se movem, que estão em estado letárgico no amor, e que esperam pelo acordar de quem os pode socorrer – a não ser que ali, pela Villa de Gaio Atilio Gordo, a deusa Ceres, criticada pelo riso de uma criança, tal como a ironizara Estélio, a quem transformou em lagarto, tivesse pedido um voto de confiança – uma criança tão mansa quanto um lagarto - ao proprietário pelos alimentos que ela exageradamente consumia.
A Villa romana de Pisoes, cujos vestígios já se conheciam, bem antes de se iniciar a sua prospecção, há pouco mais de 40 anos, sob a responsabilidade do arqueólogo bejense, Dr. Fernando Nunes Ribeiro (falecido em Maio de 2009), até princípios de 1974, é datável dos séculos I a IV, sendo de admitir uma breve ocupação visigoda. Cremos que de 1974, ou mais precisamente, de 1976 até 1979 houve uma equipa na direcção da prospecção, constituída por Fernando Nunes, José Luís Soares, Rui Parreira, Monge Soares e Mário L. Sardica. Ainda foi objecto de prospecções posteriores, mas sem a continuidade e o interesse que antes tiveram. Justino M. de Almeida e Fernando B. Ferreira, publicam, em 1969, os primeiros resultados das prospecções; Fernando Nunes publica, ainda em 1972, um estudo, ainda o mais completo, sobre a Villa dos Pisões; José Luís Soares (também falecido em 2009) apresenta, em 1973, uma comunicação sobre um prato de terra sigillata com a sigla Mandatti; João Mário L. Sardica faz, em 1975, uma abordagem complementar às partes urbana, rústica e fructuária; enquanto Maria Luísa V. Costa dá a sua contribuição, em 1986, para o estudo da gramática decorativa dos mosaicos e da sua cronologia; a barragem de Pisões é também alvo de um estudo, em 1986, de António Carvalho Quintela e outros. Actualmente, a recepção turística, possui um pequeno centro de interpretação da casa senhorial romana, composta por mais de quarenta divisões… e não está tudo à vista.
Infelizmente, uma das melhores e mais ricas villae romanas do país, encontra-se, apesar de precariamente visitável, num progressivo estado de abandono. É urgente a organização de um museu de sítio que permita devolver condignamente às ruínas o seu riquíssimo espólio, antes que se perca e disperse ainda mais. É uma tristeza ver o descalabro em que se encontra o estado do valiosíssimo património arqueológico da região.
[1] Lettres d`une chanoinesse de Lsibonne[…]. A la Haye et […]Paris: Lambert, Jorry et Delalain, M.DCC.LXX.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
A funcionalidade medieval da torre de menagem de Beja

Passaram quase quarenta anos e aqui estamos nós a braços com uma redacção que constantemente rejeitamos, talvez por já estar cansada de tantas revisões provisórias. Até parece que nos falta firmeza, embora sintamos profundamente o traquejo para avançar. Enfim, apartemo-nos das quase lamúrias e de algumas razões, e passemos ao que melhor caracteriza a Iconografia Pacense: a divulgação de aspectos insuspeitos do nosso património cultural.
Quando, em 1995, a Junta de Freguesia de Portel, patrocinou a publicação de um livrinho ilustrado de nossa autoria, intitulado “Subsídios para a história do castelo de Portel”, há muito que havíamos comparado o sistema de protecção do acesso à sua torre de menagem ao da torre de menagem de Beja. Com efeito, no interior da praça de armas do castelo de Portel, tinha havido até meados do século passado, conforme podemos observar na fotografia do arquivo da antiga Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), datada de 1938, uma torre cilíndrica, de estilo mudéjar, protectora de uma escadaria de caracol que permitia o acesso privado, do interior da alcaiadaria, à torre de menagem. Essa torre de tijolo, fechada superiormente por um coruchéu cónico, era rematada por merlões chanfrados, tais como os da ermida de Santo André e da galilé da Igreja de Santa Maria da Feira, em Beja. Teria sido construída provavelmente no final do século XV ou no início do seguinte, no mesmo local (ou próximo dele) onde antes uma escadaria móvel condicionava o referido acesso.
A comparação, pela semelhança que tentamos estabelecer, entre os acessos às

A Torre de Menagem de Beja não era excepção quanto à restrição de acesso. Apesar do seu aspecto estético, da maravilha de engenharia e arquitectura gótico-mudéjar que apresenta, não estava destinada, como hoje, em princípio, para fins culturais, pois possuía uma função militar de batedora da região circundante e de último reduto defensivo. Salientamos que para o estudo do acesso restrito à torre contam essencialmente os vestígios existentes, a razão e a sedução. Na tentativa de reconstituição que apresentamos, a protecção da escadaria até poderia ter outro formato exterior (prismático, por exemplo), e não se elevam as paredes para que se compreenda melhor o seu posicionamento primitivo. Julgamos, portanto, que a sua realidade histórica é uma hipótese a considerar em futuros estudos do castelo de Beja.

[2] Há, até, uma observação de Abel Viana, a p.392, do 2º volume da revista Arquivo de Beja, de 1945, relativa ao “apagamento”, pela DGEMN, das estruturas da nova alcáçova que ficaria adjacente à torre de menagem, enquanto a velha alcáçova, já desactivada, funcionaria possivelmente na área da actual entrada principal do castelo. De facto, D. Dinis, faz a doação de duas torres (a Guedelha, filho do rabi maior) que estão sobre a porta da sua alcáçova velha contra a vila, em 1306.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Porta romana inédita na Rua Capitão João Francisco de Sousa

Após as obras de reabilitação urbana de parte do centro histórico de Beja (ver extracto da planta)[1], levadas a cabo pela câmara municipal, tornou-se já um hábito público (o que não se faz para encurtar caminho), bastante salutar, “desembocar”, a partir da rua Capitão João Francisco de Sousa [a do antigo posto de Turismo, agora a funcionar no castelo] e do Jardim do “Bacalhau” (D), na rua do Sembrano, pelo nº72 de polícia, e vice-versa. O espaço arquitectónico, abobadado, provavelmente de seiscentos ou setecentos[2], que rompeu com a muralha e permite essa comunicação (A), integra o piso térreo do grande edifício do Clube Bejense (nº1). De fora para dentro, o percurso pedonal permite a visita, intramuros, ao núcleo muse

De fora, sobre os restos da barbacã (A), uma recentíssima escadaria metálica que sacrificou, em parte (e que precisa ela própria de ser sacrificada, mudando ligeiramente de posição), um pequeno arco de terracota com 0,80m de espessura e 1,25m de vão (não dizemos de diâmetro porque o arco não nos parece de volta inteira), só por muito pouco não destruiu também o que resta de um dos pés direitos, o do lado esquerdo, do que parece ser mais uma das entradas romanas da muralha. O outro pé direito, felizmente, encontrava-se, desde há muito tempo, escondido pela justaposição de uma parede transversal ao paramento fortificado (ver fotografia de 1982). Trata-se, sem qualquer dúvida, de elementos arquitectónicos sobrepostos (ver desenhos e fotografias), muito bem aparelhados, em granito, com o característico almofadado das construções romanas, cujos vestígios mais antigos, por um lado, e influências, por outro, se podem observar, por exemplo, respectivamente, nas portas de Évora e de Avis, em Beja, no arco de Bobadela, em Oliveira do Hospital, e nas cantarias da rua de S. Gregório/ Travessa Funda[3] e da igreja da Misericórdia/

Urge, portanto, após a identificação do bem patrimonial, no seu conjunto, proceder à incontornável prospecção arqueológica do local, prospecção que, julgamos, não acarretará grandes despesas, nem ocupará muito tempo, mas que será sempre necessária para comprovar se as estruturas se encontram ou não, desde a sua origem, in situ, isto é, no seu primeiro local de aplicação e com a função que designámos, a de portas romanas da cidade.
Quem sabe se não se encontrarão aduelas ou outros elementos arquitectónicos de relevância artística no local? Há, pois, que avançar com esse estudo, para o qual nos disponibilizamos, integrando a equipa que o município julgue por bem constituir, no intuito de devolver aos bejenses mais uma peça singular da sua vetusta cidade. Beja passará a ter, caso se comprove a nossa hipótese, além das quatro portas romanas já conhecidas – de Mértola, Avis, Évora e de “Vipasca” (a da antiga rua do Buraco ou dr. Brito Camacho)[5] – uma outra, a quinta porta romana, posicionada ao que parece num pano rectilíneo da muralha, pois os elementos visíveis não apresentam os rebordos perpendiculares, exteriores, semelhantes aos que existem quando a muralha ou as torres avançam em relação ao seu plano de inserção.
Contudo, este posicionamento, entre as portas de “Vipasca” e de Mértola, dada a grande proximidade entre si, não é totalmente compreensível, a não ser que, por hipótese, e as análises morfológica e arqueológica poderão reforçá-la, esta porta romana seja anterior às restantes, daí o seu desaparecimento prematuro, ainda no período romano. Notam-se bem, ao longo da base da muralha de Beja, os blocos maiores, alguns com mais de um metro de comprimento, essencialmente de gabro, pórfiro e granito, com pedra menos volumosa nos níveis superiores, caracterizando um aparelho incerto (opus incertum) ao qual se misturaram outros materiais, como o mármore de Trigaches, tijolo, argamassa no género do formigão, etc., de proveniência e épocas diversas. É evidente que tal heterogeneidade de materiais denuncia, além da permanente operacionalidade da fortificação, os períodos cruciais da sua reconstrução.

São às dezenas a quantidade de elementos arquitectónicos e outros, fragmentados ou não, de utilização diversa, aras, cupas, etc., reutilizados na reedificação e reparação da muralha ao longo dos séculos. Deste troço (A) foi retirado, em 1992, sob informação nossa, para o núcleo visigótico do Museu Regional de Beja, um ábaco de pilastra adossada, mas ainda lá ficaram mais três impostas, uma delas com decoração losangular pouco usual (ver desenhos e nota3). Uma das cabeças de touro fragmentadas também se encontra colocada numa das torres da rua Capitão João F. de Sousa ( a antiga do Captivo), pelo que toda essa área, caso o município torne mais visíveis as estruturas da provável porta romana, sairá extremamente valorizada.
Por último gostaríamos de recordar mais uma vez, remetendo para as crónicas que escrevemos em 1996, sobre a demolição, em 1919, da Igreja de S. João Baptista (no local do largo de S. João), que as “Portas Romanas de Vipasca” (nome que lhes demos), ou de Santa Catarina (como vêm designadas, mas sem indicação de romanas, no citado Plano de Salvaguarda da Cidade, pois ainda ninguém sabia que, também ali, tinha havido umas portas romanas), situadas na rua Dr. Brito Camacho (antiga do “Buraco” – por causa de um buraco feito no pano curvo da muralha; ou do “Muro Baixo” – após a queda do arco imperfeito do dito buraco), foram, como tentámos provar, sem escavação arqueológica (esta, sim, se um dia se pretendesse realizar, seria de operacionalidade problemática naquela zona), demolidas após a “reconquista” cristã. Queremos dizer, aliás, defendermo-nos, com a possibilidade de que algum deste material de demolição, nomeadamente dos elementos aparelhados das “Portas de Vipasca”, possa ter sido reutilizado no troço em estudo. Ora, esta hipótese, remeteria o funcionamento do portal, agora identificado pelos seus restos como romano, para o período medieval cristão e português, o que não lhe retiraria por certo a importância. Esperemos que se consiga fazer uma leitura correcta destes elementos arquitectónicos que são da maior importância para a história da fortificação e urbanização romanas de Pax Ivlia/Beja.
Cf. BORRELA, Leonel - "Iconografia Pacense - Porta romana inédita em Beja" in Diário do Alentejo de 27 de Outubro de 2006.
[2] Espaço que poderia ser aproveitado para exposições de temporárias, não de objectos, mas de painéis devidamente elaborados sobre a história da cidade ou da freguesia onde se insere. Numa planta geral da cidade, o visitante, local ou turista, tomaria contacto com a sua posição relativamente a outros pontos de interesse patrimonial.
[3] A tal área onde se pensa que existiu, segundo investigação de Jorge Alarcão, com base na topografia do terreno e pela descrição setecentista de Félix Caetano da Silva, o teatro romano de Pax Ivlia. [De uma das cartas que o autor nos endereçou, salvo erro em 1991].
[4] Quando dizemos medieval, entendemo-lo como visigodo, islâmico ou cristão português. Os tijolos do arco não nos parecem assim tão antigos, mas quantas coisas destas, no seu aspecto funcional, não são o reflexo de outras mais antigas?
[5] Cf. BORRELA, Leonel – “A igreja de S. João Baptista” I, II e III; “Ao longo da rua do Cativo”; “Imediações da Praça de Santa Catarina” e “O último grande edifício romano de Pax Ivlia I”. In Diário do Alentejo de Nov./Dez de 1995; Agosto de 1996 e Junho de 2006.